VAmOS FALAR SOBRE FEMINISMO NEGRO?

Começo esse artigo dizendo que meu lugar de fala é de uma mulher negra, de classe média alta e que sempre frequentou ambientes de branquitude. PONTO. O fato de vir aqui falar abertamente sobre o tema, ter acesso à um computador, à um emprego bacana e a flexibilidade que a minha carreira proporciona para eu ser mãe solo, já demonstra o abismo entre a minha realidade de mulher negra com a realidade de tantas mulheres negras por aí. E é por esse motivo que a gente precisa falar sobre o feminismo negro.

Me lembro perfeitamente de quando vivenciei minha primeira cena de racismo patológico. Que não foi direcionada à mim mas me doeu profundamente. Na época eu trabalhava como visual merchandising em uma loja de fastshop e no final do expediente chamaram todo mundo para uma happy hour, menos duas meninas, ambas negras retintas. Eu questionei o porque elas não foram convidadas e escutei que gente como elas não deveriam se misturar, eu era um caso à parte por ao menos ser estilosa. Não fui na happy hour e fiquei comendo hambúrguer com as meninas na praça de alimentação, não falamos à respeito, foi um silêncio doloroso, elas não poderiam se manifestar porque o emprego era crucial, mesmo doendo valia engolir a seco a ofensa. Eu não tinha me ofendido diretamente com o racismo velado na afirmação do “você é um caso à parte'”, mas me cortou o coração imaginar o absurdo que é dizer que um ser humano não pode se misturar pelo seu tom de pele e ele ter que aguentar porque não tem escolha. Acontece que eu tinha, eu sempre tive, no dia seguinte me demiti.

Dali até quando me reconheci como negra foram 8 anos de entendimento, um processo que me gerou muita dor mas também uma liberdade que seria impossível descrever. É muito difícil a gente visualizar que o racismo se instaura na sociedade não somente no gesto de rejeição explicito, mas como em diversas entrelinhas veladas. E aqui não falo sobre a industria x, y ou z. Falo abertamente sobre essa tal consciência que tanto celebramos hoje mas que no dia a dia se perde.

Feche os olhos e tente imaginar uma mulher negra. Como você a vê? Ela foge dos padrões que a nossa cultura nos ensinou? Ela tem o mesmo valor? Por mais triste que soe não tem e nem tem como, sabe por que? Porque veja bem, fomos ensinados assim. O período da escravidão não é algo distante da nossa história. A hiper sexualização da mulher negra, a solidão da mulher negra, as questões sobre saúde pública que mata mulheres negras na clandestinidade está aí para nos dizer que seguimos padrões e eles favorecem a branquitude. E isso é um fato para nos atentarmos.

Quando falamos sobre feminismo sempre pensamos nas mulheres empoderadas – e que fique claro eu respeito TODAS ELAS – que saem em buscas de seus sonhos e gerenciam a própria vida, mas isso não se aplica na mulher negra, que desde os tempos de escravidão foi tida como trabalho braçal, que nunca teve sua imagem linkada como provedora de um lar e sim como a servente do mesmo. É uma diferença brutal, enquanto a mulher branca, ainda que em seu lugar de desvalorização, carrega em si seu status, a mulher negra é representada através do sexo e da serventia.

O importante aqui é nós reconhecermos que mulheres negras são a base da piramide social, as primeiras a serem prejudicadas e as últimas a serem beneficiadas e isso pode sim ser mudado. O processo já se inicia no momento em que visualizamos nossos privilégios e passamos a cobrar algumas ações que visualizam a mulher negra não como uma mulher negra, mas como ser humano. É lindo perceber que cada vez mais nós – porque eu não deixo de me enquadrar – estamos ganhando notoriedade, nos destacando no meio e espalhando representatividade. Muitas marcas na industria da moda tem tomado frente dessa causa e levantado bandeira, mas ainda é um caminho longo até ser necessário não falar sobre as diferenças.

E vale sempre lembrar: as nossas diferenças devem nos unir, não nos afastar. Nossas vozes tem que formar um coral tão forte que as estruturas se abalem e o racismo se torne apenas uma nota solitária em meio à uma cultura abandonada. Esse é um artigo não apenas em homenagem à data que celebramos no dia de hoje, o dia da consciência negra, mas sim um chamado para o nosso despertar. Uma breve reflexão e bem superficial de como falarmos sobre feminismo negro, sobre racismo pode mudar nossas vertentes sociais e culturais, sobretudo no mundo da moda, onde cada vez mais tentamos nos afastar de padrões pré definidos para cair na singularidade e essência de cada corpo.

Se eu comecei esse artigo falando do meu lugar de falar, encerro o mesmo dizendo que diante do meu lugar de fala é mais do que prazer falar sobre tal temática, é obrigação. Convido vocês a encerrarem esse dia, refletindo sobre todas as crenças que a nossa sociedade, cultura e meios de convivência fez a gente esbarrar no racismo – sobretudo com mulheres – sem perceber e resinificar tais ações. O caminho é longo, mas de pouco em pouco a gente chega lá! Eu acredito!

Saudações calorosas!

Marília Fechio.

(31 anos, Feminista negra, mãe, militante, produtora cultural e atualmente marketing da Uhnika. Estará presente também na Roda de Debate, Feminismo Negro: Da Auto Estima à Solidão da Mulher Negra no dia 07 de Dezembro na Feira de Economia Criativa da Ayne Casa e Cultura. Vem Uh, também estaremos por lá. )

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